[WaWi-PT] 1: Pretzels e Pêras
Warm Winters: 1 - PRETZELS E PêRAS
[PT-BR]
Marcadores de Dialogo: Alba; Azazel; Kou; Leon; Lone; Luka;
As orelhas brancas e peludas de Alba se moveram rumo ao piar do relógio cuco que anunciou a chegada das duas da tarde. O draken observava e cuidava de seu pequeno cacto florido na cabeceira de sua cama, algo que sempre gostou de fazer com seus pensamentos. Mas o anúncio tirou seu foco para algo que abriu um sorriso em seu rosto, hoje é dia de piquenique.
Alba foi até o espelho, onde se viu. Um draken com pequenos chifres, olhos amarelos e de pelagem branca, com tinturas negras que desciam de seus olhos até seus ombros, e pintavam suas pernas e cauda. Se assemelhava bastante a um lobo. Ele pegou sua escova no gaveteiro e gentilmente penteou seus pelos e desatou os nós. Voltou a cabeceira, pegou uma de suas flores de origami e se perdeu pensando onde ela poderia ser posta.
Após decidir colocá-la em sua orelha deu uma última olhada no reflexo. Estava maravilhoso, mas seu leve sorriso estava ainda mais discreto que o normal. Pelo menos, hoje seriam outros amigos. Desceu as escadarias de madeira e foi até a cozinha onde colocou em sua cesta de piquenique vários pretzels e pêras.
Saiu de casa e dirigiu-se às margens do lago de Whistler Crest. Enquanto andava pelas ruas da cidade, era alvo de alguns “bom dia” e “como vai?” aos quais sempre respondia com um aceno singelo e mudo. Passados alguns minutos chegou ao lago onde viu Leon, Lone e Kou.
— Alba, ‘cê veio! — Disse Leon.
— Hm — Respondeu Alba se sentando ao seu lado.
Os cabelos loiros e orelhas longas de Leon balançavam levemente de um lado para o outro enquanto acenava. Suas escamas e pelos laranja faziam um belo contraste com a luz do dia ensolarado. Estava de cócoras próximo à toalha de piquenique amarela para não pisoteá-la com seus cascos, Lone havia dado-lhe uma bronca por ter feito isso da última vez.
Do outro lado de Alba, estava sentada Lone, uma draken amarela cuja cabeça tinha um formato peculiar semelhante a uma estrela: duas estruturas cônicas em sua bochecha e uma no topo de sua cabeça, complementadas por duas orelhas. A única garota do grupo descascava uma fruta quando o draken branco se acomodou em cima da toalha.
— Trouxe alguma coisa boa? — Lone perguntou para Alba.
— Sim — Respondeu.
Por último, à sua frente, estava sentado de forma relaxada o amigo que havia convidado todos para essa confraternização, Kou. Um draken de pelos encaracolados e verdes com uma única longa mancha amarela que percorria todo o seu corpo de um dos pés à cabeça. Um emaranhado de cabelos ruivos descansava entre os dois chifres de cogumelo sobre sua cabeça.
— Olha que legal, pretzels e pêras — Kou disse revirando a cesta de Alba. — Realmente trouxe coisa boa.
— Sim — Confirmou Alba.
Entre as poucas palavras trocadas de Alba, o encontro se mostrou proveitoso. Comeram, riram das palhaçadas de Leon, se assustaram com Kou engasgando com uma pêra e se sujaram com a torta de amoras que Lone fez. O dia estava maravilhoso, mas a sensação agradável se esvaiu em segundos. Alba sentiu seus músculos se contraírem e seu coração subir à boca com a voz que ouviu atrás de si.
— Oieeee, licença, será que eu… poderia me juntar a vocês para o piquenique? — O nyulop de pelos brancos, cílios longos e asas translúcidas perguntou educadamente. — Eu me chamo Luka, sou amigo do Alba, trouxe algumas frutas da feira que posso compartilhar com vocês — Sorriu para os drakens e encarou Alba, cerrando discretamente os olhos.
— Claro, senta aqui com a gente! - Concordou Lone, abrindo espaço entre si e Alba para que o nyulop pudesse se sentar.
— Estávamos fofocando e jogando conversa fora, é um prazer te conhecer! — Kou sorriu ternamente para o nyulop desconhecido.
Alba soltou um suspiro discreto que passou despercebido pelos outros, manteve a postura e decidiu ignorar quaisquer possíveis implicâncias de Luka que seriam direcionadas a ele “Ele provavelmente vai se comportar na frente dos outros, não tem porquê eu me estressar com isso.” Pensou enquanto o nyulop sentava ao seu lado. De fato, Luka estava se comportando normalmente e sendo estranhamente sociável com seus amigos, mas essa gentileza toda não durou muito.
— Olha só, você voltou a andar com essas florzinhas bregas suas - Luka sussurrou para Alba, enquanto os outros três gargalhavam de uma piada vinda de Leon — Não sei como o Azazel acha bonitas.
O draken murchou, o dia seria maravilhoso… mas Luka precisava aparecer mais uma vez para estragar tudo.
— Ei, Alba, eu aposto que consigo atirar essa pedra bem mais longe do que você. — Depois de todas as risadas, chamou a atenção do draken peludo e mostrou uma pedra achatada, que se jogada com jeito no lago, facilmente pularia por volta de quatro ou cinco vezes na superfície da água antes de afundar.
— Ah, é uma bela pedra — Alba respondeu, não muito interessado por conta da situação em que se encontrava — O que eu ganho se eu achar uma pedra melhor e jogar mais longe?
— Nada, porque eu não vou perder pra você, isso é impossível — O draken de fogo riu e logo estufou o peito para se gabar de suas habilidades, lançava a pedrinha para cima e pegava-a ainda no ar ritmicamente.
Alba pensou consigo mesmo que esta provocação seria, na verdade, um ótimo motivo para se levantar e fugir de Luka. Deixou seu espírito competitivo liderar a situação e levantou-se do pano quadriculado para encontrar uma pedra boa o suficiente para competir com a que lhe foi mostrada.
Os drakens se afastaram do piquenique para a margem do lago, não muito longe de onde estavam. Os finley restantes permaneceram conversando entre si, conversaram assuntos comuns entre pré-adolescentes como “qual seu animal favorito?”, “qual área da magia você acha mais interessante?” e outros tópicos semelhantes. Conforme o andar da conversa, Luka percebeu que os dois drakens estavam ausentes já há alguns minutos e olhou para diferentes direções até avistar ambos à beira do lago atirando pedras. Decidiu segui-los.
— Gente, aqueles dois ali parecem estar jogando um jogo divertido, acho que vou olhar mais de perto e ver se consigo participar também… Já volto! — O nyulop usou a voz mais amigável que conseguia, levantou e dirigiu-se à margem do lago.
— Nossa, esse cara é bem legal, não acha Kou? — Lone virou-se para o outro draken com um sorriso no rosto ao comentar — Achei ele muito simpático, mesmo sendo a primeira vez que conversamos.
— Também achei, ele comentou que era amigo do Alba, então faz sentido ele ser gente boa, já que o Alba também é um ótimo finley — Kou respondeu, logo pegando um pretzel da cesta de piquenique. — Quero conversar mais com ele quando voltarem do lago.
Tudo parecia bem quando visto de fora, mas Luka estava planejando algo maligno em sua mente.
— Alba! E… hum… Leon, se eu não estiver enganado. Posso me juntar a vocês na competição? — O nyulop se aproximou sorrateiramente e perguntou como quem não quer nada. Leon, empolgado com o jogo, concordou em deixar Luka participar já que, segundo ele, seria só mais um perdedor no final das contas.
Alba, que tinha conseguido relaxar levemente durante o jogo, sentiu novamente seus músculos enrijecerem na presença do nyulop branco. Observou-o por sua visão periférica de forma desconfiada.
Luka não tinha procurado pedra alguma para participar da pequena competição de arremesso de pedras e, sem pedir, pegou uma boa pedra que repousava no topo da pequena pilha amontoada ao lado da pata de alba. O draken não reclamou, apenas apertou seus punhos silenciosamente. Os três jogaram pedras por alguns minutos até que o nyulop finalmente decidiu abrir a boca.
— Eu estava pensando aqui, Alba… como você e o Azazel ficaram tão próximos? Tipo… Você é tão sério, calado e chato, isso não combina nem um pouco com a personalidade radiante dele, sabe? — Ele jogou mais uma pedra no lago e depois virou seu olhar para o draken peludo, olhando-o de cima a baixo — Talvez ele tenha feito um ato de caridade porque ficou com pena de você.
Alba sentiu o sangue subindo à cabeça e franziu o cenho “O que esse babaca pensa que tá falando?” pensou consigo mesmo antes de realmente dirigir a palavra ao nyulop — Para de falar essas coisas cara, o Azazel não tem motivo pra ter pena de mim — Disse, em tom de confusão e raiva.
— Bom, é que se eu estivesse no lugar dele, eu com certeza teria pena de você, já que não consegue desenvolver um vínculo verdadeiro com amigo algum. Mas você está certo, Azazel tem um coração tão bom e puro… ele não faria isso por pena. Então provavelmente você só está perto dele para sugar toda a bondade dele para si como uma sanguessuga por inveja, já que você não consegue ser como ele, não é? — Luka desdenhou carregado de cinismo, encarando no fundo dos olhos de Alba. — Se não fosse pelo Azazel e pelo Kou ali atrás pegando sua patinha e te fazendo interagir com os finley ao seu redor você não teria companhia nenhuma. Você não passa de um esquisitão antissocial que não tem assunto com ninguém.
Alba perdeu a compostura, ele não esperava um ataque pessoal tão cruel sem motivo aparente. Ao ver o draken tão irritado e escutar os ataques do Nyulop, Leon decidiu intervir na situação — Ei mano, você tá sendo um otário sem motivo nenhum.
Luka encarou Leon de relance, e decidiu ignorá-lo para continuar sua palestra.
— Eu vim aqui hoje por um motivo, Alba, eu quero que você se afaste do Azazel. Toda vez que estamos juntos, vocês dois ficam excessivamente juntos como carne e unha, e eu quero a atenção dele também, sabe? Eu sou um par perfeito para ele, sou bonito, amigável e comunicativo, tudo que você falha miseravelmente em ser, Alba. Você apaga o brilho dele, já eu, aumento esse brilho exponencialmente. Não quero ver meu Azazel sendo apagado por sua causa.
Alba repetia em sua mente “Nada disso é verdade” enquanto sentia sua garganta arder e seus olhos secarem mais a cada palavra vinda da boca do nyulop. Azazel era seu melhor amigo, o intruso nessa amizade era justamente Luka, que desde que se conheceram estava lutando incessantemente pelo lugar que Alba ocupava em sua vida.
— Chega! — Leon esbravejou, jogando uma pedra no chão.
— Não se meta onde não é chamado. A conversa aqui é entre os indivíduos A e B — Luka apontou para si mesmo e para Alba ao mencionar “A e B” — Quando eu me referir ao indivíduo C, você pode começar a latir, viu? Cachorrinho — Apontando para Leon, o nyulop cerrou os olhos — Vai lá conversar com o seu amiguinho verde sonso antes que alguém mais interessante apareça na vida dele e me deixa resolver o meu problema com esse draken meia-boca aqui.
O sangue de Leon ferveu e seu rosto ficou vermelho de raiva.
— Vai se foder. — Apontou para Luka — Cala essa boca imunda, seu ratinho de merda, e nunca mais ouse insultar a mim ou aos meus amigos desse jeito. — O draken de fogo ameaçou avançar contra o nyulop, mas foi detido por Alba, que ainda ouvia a voz da razão mesmo diante daquela avalanche de insultos.
— Me solta, porra, eu vou quebrar a cara desse desgraçado. — Leon tentou se soltar das mãos do Draken.
— Não, você não vai, ele quer ser a vítima da situação. Ele quer exatamente isso. — Alba encara Luka com ódio nos olhos.
— Uauu que adorável, você quer proteger seu namoradinho patético… oops falei em voz alta. — Luka soltou uma risadinha ao ver a cena na sua frente.
Alba estremeceu com todo o ódio e tristeza acumulados no corpo. Alternando o olhar entre Leon e Luka, com um semblante conturbado. Os resquícios de razão ainda existentes em sua mente finalmente cederam à raiva. — Quer saber, foda-se, a gente vai quebrar esse desgraçado na porrada. — Soltou Leon e avançou com tudo para cima do nyulop.
Luka, que não é burro nem nada, ao ver o draken avançando pra cima dele, se aproveitou de sua posição e empurrou-o no lago com toda força que tinha para não ser espancado pelos dois ao mesmo tempo. Mas ainda tinha de lidar com Leon, visivelmente muito mais irado com toda essa palhaçada.
O draken cerrou os punhos e deu um soco de sopetão na boca do nyulop, cortando seu lábio com a intensidade do impacto. Luka cambaleou para trás desnorteado, enxugou o sangue que escorria pela sua boca nos pelos brancos de seu pulso, manchando-os com vermelho-vivo. A tensão no ar era palpável. Luka não teve mais que alguns segundos para se recuperar da pancada na cabeça, avistou um borrão laranja avançando em sua direção novamente e entrou em posição de combate. Ambos avançaram freneticamente em direção um ao outro, punhos colidiam contra os ossos, arranhões rasgavam os corpos e mordidas ferozes derramavam o sangue fervente em frenesi. Rosnados de fúria puderam ser ouvidos ao longe.
Com um salto ágil o nyulop se lançou sobre o draken, cravando as presas em seu ombro desnudo e derrubando-o, Leon soltou um grito de dor enquanto os dentes penetravam sua carne. Com um pouco de esforço, o draken agarrou pela cintura o nyulop em cima de si, cravou as garras em suas costelas e o jogou para o lado. A uma distância segura, Leon pôde se levantar e segurou seu ombro na tentativa de conter o sangue escorrendo. Luka, ajoelhado, abraçava seu tronco que doía ao respirar.
Lone e Kou escutaram os gritos e rosnados, correram o mais rápido possível para tentar separá-los e lidar com a situação inesperada. Os drakens se posicionaram entre os selvagens para evitar mais danos. Luka, mesmo ofegante, continuava xingando e provocando Leon. Estava tentando ganhar mais tempo usando quaisquer métodos necessários.
Enquanto toda a briga acontecia, Alba continuava no lago. Desde criança tinha medo de água, nunca conseguia mexer seus braços e pernas de modo que o fizesse nadar, até mesmo boiar era uma tarefa difícil para o coitado. O draken se debatia na água, mas nada acontecia. Seu desespero começou a afundá-lo lentamente e a esse ponto seus pulmões já doíam de tanto exigir o oxigênio que não havia no fundo do lago.
Kou notou a ausência de Alba olhou em volta. — O Alba não tava aqui com vocês agora há pouco?
— Merda, ele caiu no lago — Leon imediatamente desviou dos finley bloqueando seu caminho e pulou no lago terrivelmente gelado pelas baixas temperaturas do inverno, para procurar onde Alba tinha sido empurrado. Suas recém abertas feridas ardiam em contato com a água do lago, e para piorar a situação, ao abrir os olhos, mal conseguia enxergar devido à turbidez da água. Por sorte, Leon avistou a flor de origami que antes adornava a orelha de Alba, boiando na água completamente encharcada. Conseguiu localizá-lo já inconsciente embaixo d’água e usou seu braço saudável para puxá-lo à superfície. Com esforço e ajuda dos dois amigos à margem, conseguiu tirar o draken de dentro do lago. Alba vomitou toda a água que havia engolido enquanto se afogava e tossiu bastante até recobrar a consciência, permanecendo ainda meio tonto e tremendo agressivamente devido à hipotermia. O grupo de amigos respirou fundo de alívio ao ver que o Alba estava respirando novamente. Durante toda a comoção e desespero, Luka fugiu sem deixar rastros além de gotas de sangue que se esvaíram em poucos metros.
— O que foi isso? O que aconteceu? Porque vocês brigaram do nada? — Kou bombardeou Leon de perguntas, enquanto colocava a toalha quadriculada do piquenique em volta de Alba na tentativa de esquentá-lo. O draken estava visivelmente confuso, visto que o nyulop havia sido extremamente simpático com ele mais cedo.
Ainda muito irritado, Leon respondeu batendo os dentes tentando conter sua tremedeira — Esse filho da puta ficou xingando o Alba e falando mal de você, daí eu fiquei putasso com esse otário.
— Do nada? — Lone, incrédula, perguntou limpando as feridas de Leon.
— SIM! FOI DO NADA! — O draken de fogo exclamou. — E aí ele simplesmente empurrou o Alba no lago.
Alba, em meio a tosses, complementou — Eu acho que ele tentou me matar. Ele tinha plena consciência de que eu não sabia nadar e ainda assim me empurrou, não foi um acidente. — O clima pesou como tijolos, todos ficaram desconfortáveis.
Após longos segundos, Lone quebrou o silêncio. — Acho que o ideal seria vocês irem pra casa descansar do que acabou de acontecer. Principalmente você, Alba.
Kou concordou e complementou — Nós podemos fazer mais piqueniques outro dia, a gente marca depois. Vocês precisam se esquentar.
Os dois concordaram. Kou e Lone já haviam levantado acampamento parcialmente, pegaram o que restava e acompanharam os feridos até em casa.
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No dia seguinte, Alba acordou ao som do mesmo piar do relógio cuco com o qual acordava todos os dias, mas hoje estava derrotado. Toda a confusão do dia anterior havia pesado seu peito e cansado seu corpo, uma única noite de sono não era suficiente para se recuperar de um afogamento e muito menos para recuperar seu coração da devastação que Luka causou. As palavras afiadas do nyulop continuaram a perfurá-lo durante toda a noite, acompanhadas dos próprios pensamentos que o atormentavam. Alba se sentia ferido não só por isso, mas pela ciência de que seu amigo não acreditava em nada que ele comentasse sobre Luka. Era o finley perfeito por fora, quase nunca tirava a máscara de bonzinho como no dia anterior, seria impossível conceber que um nyulop como ele poderia ser hostil e violento, certo?
Apesar do peso em seu peito, e de sua tristeza quase que incapacitante, Alba decidiu ir ao dormitório de Azazel para pôr um ponto final nessa situação desgastante a respeito de Luka. Se o amigo não acreditasse nele, não havia mais nada a ser feito por essa amizade.
O draken foi recebido no dormitório por um nyulop de pelos castanho-escuros com uma característica mancha castanho-claro que se destacava ao redor seu olho esquerdo, olhos vermelhos e asas negras.
— Azazel, você… está livre para conversar? — Alba perguntou baixo, em pé em frente ao nyulop, com os ombros encolhidos.
— Sim sim, o que foi? Aconteceu algo? Entra, você parece mais pálido que o normal. — Azazel deu passagem para o draken, e fechou a porta atrás dele.
Alba e Azazel se sentaram lado a lado na cama presente no dormitório e o draken respirou fundo antes de contar o ocorrido ao amigo.
— Aconteceram, na verdade, várias coisas… — Alba desviou o olhar, não queria encarar o amigo. Não queria dizer o que veio lhe dizer. As palavras estavam entaladas em sua garganta e pareciam se recusar a sair.
— Ei, tá tudo bem, não precisa se forçar, tá? — Azazel acariciou as costas do draken levemente para confortá-lo
Mas isso foi a gota d’água.
— Ontem eu estava num piquenique com Kou e uns amigos. O luka chegou sem avisar, e como ele me odeia, me insultou como de costume. — Alba respirou fundo antes de terminar seu relato, o nyulop estava atento a suas palavras — E para ser direto, ele tentou me matar afogado. Ele me jogou no lago.
Azazel ficou em completo choque, ele nunca imaginou que Luka poderia fazer algo tão terrível. Para ele, as brincadeiras de Luka nunca chegariam tão longe. — Mas você tem certeza que ele tentou te matar mesmo? Não foi só, tipo, um acidente? — Azazel tentou amenizar a situação. Estava em negação como de costume. Insistiu que provavelmente foi só um grande mal entendido. — Eu vou conversar com o Luka para saber a versão dele e entender a situação o melhor que eu puder, eu juro.
Alba, ao ver a reação de seu amigo, sentiu seu coração afundar ainda mais. Azazel queria ouvir a versão de quem tentou lhe matar, para ‘entender’ uma situação já explicada. Conhecendo Luka, ele facilmente convenceria Azazel de que tudo isso foi um grande exagero e de fato um mal entendido. Os olhos de Alba marejaram.
— Eu não queria fazer isso, mas eu não vou conseguir conviver com um louco desses tentando me matar a vida toda. Eu sei que você escolheria ele se precisasse escolher entre nós dois, então… vou te poupar da escolha. — O draken respirou fundo, derrotado.
Ao ouvir isso vindo da boca de seu melhor amigo, Azazel sentiu uma tristeza inexplicável tomando conta de seu corpo de dentro para fora. — Ah, eu… posso ter pelo menos um tempinho pra pensar no assunto? — Murmurou baixinho, com a voz trêmula.
— Faça o que quiser… — Alba enxugou uma lágrima com as costas da mão esquerda, sabendo no fundo que nada mudaria. Ele teria que se distanciar de Azazel para sua própria segurança. Silenciosamente, o draken se virou para o amigo e lhe deu um longo abraço apertado, antes de levantar e se dirigir à saída.
Alba segurou a maçaneta da porta e ficou ali por alguns segundos, esperando em silêncio, e sem ouvir uma palavra do nyulop sentado na cama atrás de si, apertou os punhos e passou pela porta.
Um gosto amargo descia pela garganta do draken. Perder um amigo próximo de longa data por causa de terceiros doía profundamente. Seu âmago se retorcia em agonia relembrando todas as vezes em que aguentou calado as violências de Luka para manter sua amizade viva, mesmo que aos frangalhos. Se retorcia ao lembrar de todas as vezes em que Luka distorcia os acontecimentos e saía como vítima. Se retorcia ao lembrar de todas as vezes que Azazel descredibilizava suas palavras quando equiparadas com as de Luka. Se retorcia tanto que o suco gástrico dançava em seu estômago causando-lhe náuseas para acompanhar a solitária falta de fôlego que o aperto no peito lhe causava.
Se arrastando para fora do dormitório do Azazel, Alba coincidentemente dá as caras com Leon. O draken estava todo enfaixado, apenas alguns arranhões superficiais escapavam dos curativos que envolviam seu corpo. Leon acenou com o braço menos enfaixado e vocalizou um simples “oi” para chamar a atenção de Alba. Recebeu em resposta um olhar fundo e cansado.
— Como ‘cê tá? Melhor? — O draken laranja se aproximou
— Honestamente, não muito — O draken de gelo abaixou um pouco mais as já abaixadas orelhas, visivelmente triste.
— Ah, que merda. Quer… falar sobre? Talvez. — Leon coçou a nuca um pouco constrangido.
Alba desviou o olhar e murmurou baixo — Não tenho muito a dizer, você viu tudo.
— É eu vi, mas sei lá, às vezes reclamar faz bem né…? — O draken de fogo esboçou um leve sorriso para tentar confortar o draken de gelo em sua frente — Tô aqui pra ouvir se precisar xingar o desgraçado.
Ao ouvir isso, Alba soltou um suspiro e lentamente se aproximou do Leon. O draken chegou muito mais perto do que geralmente chegava de qualquer um, chegou tão perto que se permitiu repousar a cabeça em seu peito e ouvir as batidas rítmicas do peito do draken. Sentiu um leve conforto, pelo simples fato de ter alguém ali por ele.
— Obrigado… — Alba sussurrou tão baixo, que Leon só conseguiu ouvir por milagre.
O draken laranja ficou atônito, não fazia ideia do que se passava na cabeça do outro, um turbilhão de pensamentos e possibilidades se passaram pela sua mente. Afinal, por mais que fossem amigos próximos, nunca vira Alba abaixar a guarda nem se abrir de fato sobre seus sentimentos… era denso como uma pedra. Após ser atordoado por alguns segundos, Leon lentamente o envolveu em seus braços doloridos, oferecendo uma dose a mais de conforto físico ao amigo fragilizado. E assim permaneceram.
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Continua
[WaWi-PT] 1: Pretzels e Pêras
Will be translated to english soon :]
Submitted By shihai
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